APRESENTAÇÃO

"O Grito é uma pintura do norueguês Edvard Munch, datada

de 1893. A obra representa uma figura andrógina num

momento de profunda angústia e desespero existencial".

 

 

Chutando o pau da barraca

 

 

Por que crise nervosa? Para início de conversa eu gostaria de me apresentar. Eu sou jornalista recém-formada e a mais recente desempregada na Bahia. Isso já explica tudo.

 

Eu estudava direito e jornalismo, mas em 2001 decidi abandonar uma possível carreira jurídica para me dedicar ao curso de comunicação da Universidade Federal da Bahia. Fui chamada de louca. Os meus pais queriam que eu concluísse os dois cursos, enquanto os mais cruéis da família diziam que eu tinha vocação para a pobreza.

 

Desde os tempos de colégio eu sonhava em ser jornalista. Marlon, professor de história, também cursava jornalismo e me incentivava. “Você tem perfil de jornalista”, dizia ele.

 

Eu chutei o pau da barraca, tomei a minha decisão e, em 2006, finalmente concluí a graduação em comunicação social com habilitação em jornalismo. No início parecia que ia dar certo. Logo surgiu a oportunidade de trabalhar no interior do estado, fazendo assessoria de comunicação numa prefeitura. Eu não conhecia ninguém na cidade, na verdade nunca havia pisado os meus pés lá. Mas eu encarei. No início ficava sozinha num quarto de pensão, depois numa casa alugada com algumas colegas. Mas o trabalho na prefeitura... Como na maior parte das instituições do setor público do país, eles querem funcionários que fingem que trabalham. Sem estrutura e apoio, o funcionário não tem muita opção, faz o que pode e se acomoda, afinal de contas o salário será creditado no final do mês.

 

Quando a oposição conseguia espaço numa rádio da região para tecer críticas à gestão, o prefeito mandava chamar “a comunicação”. “A oposição bate e a gente não responde!”, ele bradava. Eu disse a ele certa vez: “A comunicação só é importante quando a oposição bate”. Ele não entendeu. Um ano se passou e nenhuma das minhas solicitações foi atendida.

 

Muita gente me dizia pra eu relaxar: “Faça o que pode e vá levando”, eu ouvia. Mas, mais uma vez, eu resolvi contrariar a maioria das opiniões. Decidi que estava muito cedo para eu me acomodar. Pela segunda vez, chutei o pau da barraca, pedi a minha exoneração e voltei pra casa.

 

Agora eu me pergunto: “E agora?”.    

 

 

 

 

 

 

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